IT’S BETTER TO FEEL PAIN THAN NOTHING AT ALL

IT’S BETTER TO FEEL PAIN THAN NOTHING AT ALL

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“What’s your controversial theory?”

 

“It’s better to fail pain than nothing at all.”

I remember hearing a singer I like saying this. I remember not getting what he meant, but the melody sounded nice and, for that reason only, I kept the headphones on and sang along to the rhymes on my way home. But now I understand. Or, at least, I sing it with theconfidence of someone who feels what is understood.

All because the skin was touched on the open wound. But when the crevice closed, or when another horizon could be seen, life also became busy and the sight lost focus. And just like that, without me even noticing it, I stopped understanding.

I forgot and let it fly away – the pain, the one that pulses insistently and opposes the unconsciousness of living.


June 2017

The heat is suffocating and orange, and the sky is burning and naked. The surface exhales the heated air in trembling, curvy waves, as if the horizon played in a water-colored painting. I wake up with the sun sneaking through the window. The blankets, forming a nest under my body, are too hot. I feel the sweat breathing through every pore.

On the upper floor, there’s a shower that never felt so tempting. I turn on the cold water and take off the swimming suit, which left its shadow printed on the skin it was hiding. The mirror in front stares at me, intrigued. I return the look and face myself directly.

I have dry sand glued to my ankles and my hair tangled in a nest of salt and waves. I unroll the expression upon myself.

Curious, I say to myself, how much we see without seeing anything at all!

Because never has anyone known anything before knowing something about themselves first.

And when it comes to us, we look around. We don’t see the center. We make statements and suppositions, while we lie to ourselves when what we are, we hide.

Here I am. And there she is, ripping my chest, like a stream that runs towards the river, slim and straight. Steady and linear. I almost dare to ask where it has been this whole time, but I shut up with the realization that it was me the one who wasn’t in the right place. It seems to gain sharpness the more I stare at it – but once again, it’s all a matter of optics.

I have no memory of the moment in which this scar was drawn on me, but I guess I know the story that brought her to life quite well.

Or did time take charge of sweeping away what, to memory, it has left?

Although the story seems told from afar, I still know the way back to the attic where I stored the book. I break in, discover drawers and dust-off archives. I find those days: the sudden start; the changed plans, from a life on the run to a tied-up survival, from an airplane chair to a hospital bed, from the knitted sweaters to the white coat, from the unleashed soul to the mechanized heart and the orchestrated breath; the intermittent “during”; getting answers and desiring to give them back for change; losing what I didn’t know I had, and gaining what I never thought I needed; the settling of routine on the never-ending doses of pills swallowed in hands-full; the “good mornings” strolled in-between cold-lighted hallways and sterilized walls; the nights packed in chamomile tea and cookies; the needles that were not even felt stinging anymore, and the machines that beeped the rhythm of the seconds.

And now, in the mirror that reflects me, I only see what’s left. The scars.

Because I don’t have my hands covered in stickers anymore, nor the arms wired to lines pending from an iron support. There is no longer an excuse to spend the whole day in pajamas, and the bed is only open when it’s already late. But the scars are there because it’s on them where the story is printed in tattoos. The ink is injected deep into the skin, and its drawings are permanent.

How tenuous is the validity of feeling! How easy it is for the indifference that doesn’t remember what doesn’t unsettle it. Suddenly, I feel an almost unbearable sting. Of what? Of guilt.

Guilt, of being busy with everything that is nothing.

Guilt, of letting escape that rampant desire, that tireless will, that insatiable craving. Guilt, of forgetting the contrast where the black revealed the white, where the fear filled the chest with courage, where the crying echoed the loudest laughter, and where the pain awakened me to life. 

Because, at the end of the day, I could only build myself whole after I was torn to pieces.

I outline the lines that describe me, with increased intensity in the corners hidden by the light of the shadow. I wave again, to the reflection with which the mirror salutes me. I dress up the whole skin that covers me – because even if the return ticket was still valid, a long time has passed since I turned it into a piece of crumpled paper, lost at the bottom of the waste bin.

Because everything is better than nothing, and undeniable are the wise that feel because they live – and so, live, simply because they feel.

And even wiser are those who don’t need to see the stained black to distinguish the clarity that paints the white. Because they know what whole love is, and blind hatred; euphoric joy, and soulless sadness.

 

“IT’S BETTER TO FEEL PAIN THAN NOTHING AT ALL”

Lembro-me de ouvir um cantor de quem gosto dizer-me isto ao ouvido. Lembro-me de não perceber o que queria dizer, mas a melodia soava bem e, por isso e nada mais, mantinha os headphones postos e trauteava os versos a caminho de casa. Agora sim, compreendo. Ou pelo menos, canto-o com o sentido de quem sente o que é percebido. Tudo isto, porque a pele foi tocada na ferida aberta. Mas quando a fenda se fechou ou, pelo menos, quando um outro horizonte se avistou, a vida também se ocupou e o olhar desfocou. E assim, sem me aperceber, deixei de perceber.

Esqueci-me, e deixei-a voar – a dor, a que pulsa insistente e que se opõe à inconsciência de viver.


Junho de 2017:

Está um calor sufocante e cor-de-laranja e o céu ardente e despido. A superfície bafeja o ar aquecido em ondas trémulas e curvas, como se o horizonte brincasse num quadro pintado em aguarela. Acordo com o sol intrometido a espreitar à janela. Os lençóis aninhados por debaixo do meu corpo estão quentes de mais. Sinto o suor respirar por todos os poros. No andar de cima, há um duche que nunca me pareceu tão apetecível. Ligo a torneira da água fria e dispo o fato de banho, que deixou sombra marcada na pele por ele escondida. O espelho à minha frente fita-me, intrigado. Devolvo-lhe o olhar e encaro-me de frente. Tenho areia seca colada aos tornozelos e o cabelo emaranhado num ninho de sal e ondas. Desenrolo a expressão sobre mim.

Curioso, penso eu, o quanto vemos sem vermos coisa nenhuma! Porque jamais alguém soube de alguma coisa, sem antes saber algo de si.

E quanto a nós, olhamos em volta. Não vemos o centro. Afirmamos e supomos, enquanto nos mentimos quando o que somos, omitimos. Aqui estou eu. E lá está ela, a rasgar-me o peito, como um riacho que corre rio adentro, fina e reta. Certeira e linear. Quase que me atrevo a perguntar por onde andou este tempo todo, mas calo-me quando percebo que era eu quem não andava no sítio certo. Parece ganhar nitidez quanto mais a fito mas, mais uma vez, é tudo uma questão de ótica.

Não tenho consciência do momento em que esta cicatriz me foi desenhada, mas julgo saber bem da história que lhe deu vida. Ou será que o tempo se ocupou a varrer o que à memória abandonou?

Apesar de a história me parecer contada ao longe, ainda sei o caminho de volta ao sótão onde encaixei o livro. Entro de rompante; descubro gavetas e desempoeiro arquivos. Encontro aqueles dias: o início súbito; as voltas trocadas, de uma vida a correr para uma sobrevivência amarrada, da cadeira do avião para uma cama de hospital, das camisolas de malha para a bata branca, da alma solta para o coração mecanizado e o respirar orquestrado; o “durante” intermitente; o ter respostas e desejar devolvê-las para troca;

o perder o que não sabia ter, e ganhar o que nunca pensara querer;

o assentar da rotina na dose interminável de comprimidos engolidos de mão cheia, nos “bons dias” percorridos entre corredores de luz fria e paredes esterilizadas, nas noites embaladas com chá de camomila e bolachas Maria, nas agulhas que já nem se sentem a picar, e nas máquinas que ritmam os segundos ao apitar. E agora, no espelho que me reflete, só vejo o que resta. As marcas. Porque já não tenho as mãos cobertas de adesivos nem os braços presos em linhas pendentes num suporte de ferro. Não há desculpa para passar o dia todo de pijama, e a cama só se dá ao serviço quando já se faz tarde. Mas as marcas estão lá, porque é nelas onde a história se imprime em tatuagens. A tinta é injetada profunda na pele, e o seu desenho é permanente.

Como é ténue a validade do sentir! Como é fácil a indiferença que não se lembra do que não se inquieta.

Subitamente, invade-me um sentimento de culpa quase insuportável. Culpa, de andar ocupada com tudo o que é nada. Culpa, de deixar escapar por entre os dedos aquela vontade insaciável, aquele desejo desenfreado, aquela paixão incansável. Culpa, de esquecer o contraste onde o preto revelou o branco, o medo encheu o peito de coragem, o choro ecoou as mais altas gargalhadas, e a dor despertou para a vida. Contorno as linhas que me descrevem, com uma intensidade aprofundada nos recantos escondidos à luz da sombra. Aceno de novo, ao reflexo com que o espelho me cumprimenta. Visto a rigor toda a pele que me encobre, porque se o talão ainda estava válido para troca, há muito que fiz dele um pedaço de papel amachucado e perdido no fundo do caixote. Porque tudo é melhor que nada, e irrefutável é o sábio que sente porque se diz vivo – e assim, vive, simplesmente porque sente.

E ainda mais sabido é aquele que não precisa de ver tingido o preto para distinguir a claridade que pinta o branco. Porque esse sabe o que é a alegria eufórica, e a tristeza desalmada; o ódio cego e o amor inteiro.

   

MARTA D'OREY

My name has an easy laughter and a rooted character. It is written in words printed in the stories that, in me, I pack, and express out loud with a stuck-up attitude. My name is tangled in messy hair and rooted in bare feet. It is told restless and curious, assertive and stubborn. It is printed on the ground in which it steps on, and expressed in a sky it can’t locate. It dreams, but awake. It knows, but not all. It searches, but enjoys along the way. Does it live? Without certainties, but with immense joy. My name is all of this and much more. To friends? Marta will do. Pleasure? Hope not all mine.

LISBON, PORTUGAL

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