CAN A LOOK CHANGE THE WORLD?

CAN A LOOK CHANGE THE WORLD?

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As I entered barefoot in that room of tiled floor, I felt the world fall at my feet when I confronted that look. His great brown eyes could melt the coldest of hearts. His olive-toned skin spread the same Indian heat that was impregnated in our clothes and in the air. From time to time, he smiled faintly, unaware of what surrounded him.

And he shook his head, repetitively, from side to side, as if saying “no”. As if life had taught him there was nothing good. As if he knew that he could never leave that place. As if he knew that the unfortunate fate had abandoned him, with no future and no luck. As if he knew he was alone. As if he knew that my visits would end one day. As if he preferred to deny his existence.

But I believe, and I’d like to believe, that his seven years of age didn’t allow him to understand the impact that poverty and misery had in his life.

Also, because he didn’t know, and probably would never get to know, another reality.

What frightened and marked me the most in that penetrant look was the fact that it still overflowed with hope.

So much hope that it hurt to know I couldn’t save that kid from that place, where despair and fear are predominant, where there is no love. It hurt to look at him, and all the other holy boys who were locked in there, like prisoners of a fate that had abandoned them, too soon, to their sad luck.

All of them had been rejected by the world – some abandoned in the streets to starve to death, others victims of failed abortions, others suffering from diseases considered cursed in the Indian culture. And others, like my brown-eyed friend, were orphans.

Out of weakness, I, too, decided to abandon that dark place, where the dreams of all the children that go inside it were shut down, and replaced by big nightmares.

Because, as I was confronted with their fragility, I faced my own.

That’s what bothers us when we see others suffering – seeing our own pain looking back at us.

But I couldn’t anticipate my departure and prevent the brown-eyed kid from some happy moments. Like when I held him so he could look out the window and see the turmoil in the streets of Calcutta. In those moments, I saw a special sparkle in his childish eyes. He would let his fingers linger on the glass, as if he wanted to carefully save in his memory everything he saw. There we stood, me holding him in my arms, and him observing the details of the outside world.

In those moments, time stopped for both of us. But they were so rare, fugacious, that they became precious.

Moments like those are something that not even misery, nor poverty, nor the lack of luck can steal.

After dedicating to him all the time I could, I would put him back in his fenced crib, and dive into the house work, moved by body and soul. I would scrub that tiled floor like that kid’s life depended on it. It was an intense and exhausting physical work, too heavy for a single person. And day after day, the exhaustion started to invade my mistreated bones, and so did the smell of industrial bleach.

I wanted to change the world and save all those children. Wash solitude away from their souls, cure their diseases, give a meaning to their lives.

It hurt me so much to leave the brown-eyed kid in Calcutta, not being able to bring him with me.

I wanted to grow up faster, to suddenly have the power to transform that city, and solve all the problems that are so deeply rooted in it. I felt I only solved superficial issues, and that because I didn’t get to their root, the problems would still be there after I left.

I understood that I had lost hope by witnessing that reality, by entering that room of abandoned children. And that kid, whose name I’ll never know, lit me up. He gave me strength when exhaustion tried to take over.

He reminded me that Humanity is not lost, that there is good in the world, even when you live in the dark.

Silence drowned my anguish on my way to Calcutta’s airport. My soul was washed away by tears, and by the tattooed thought of that kid’s look. How could he have hope, in a world that let him down?

I realized I wanted to grab that generous gift of hope and use it to contribute with my life to the construction of a better world. But how can I change the world?

Maybe with the look. With what the eyes say.

My world changed with that look, so maybe my look can change a bit of others’ worlds too.

 

Ao entrar descalça naquela sala de chão de azuIejo, senti o mundo cair aos meus pés quando enfrentei aquele olhar.

Os seus grandes olhos castanhos podiam derreter o mais frio coração. A sua pele, coberta por uma cor de azeitona, emanava o mesmo calor indiano que estava impregnado na roupa e no ar. De vez em quando sorria levemente, despreocupado com o que o rodeava.

E abanava a cabeça, repetidamente, de um lado para o outro, dizendo que “não”. Como se a vida o tivesse ensinado que não há nada de bom. Como se soubesse que nunca poderia sair daquele lugar, como se soubesse que o destino cruel o tinha abandonado sem futuro e sem sorte. Como se soubesse que estava sozinho. Como se soubesse que as minhas visitas, um dia iriam acabar. Como se preferisse negar aquela existência.

Mas acho, e quero achar, que os seus sete anos não lhe permitiam compreender o impacto da pobreza e da miséria na sua vida.

Até porque não conhecia, e provavelmente nunca conhecerá, outra realidade.

O que mais me assustou e marcou naquele olhar penetrante foi o facto de transbordar esperança.

Tanta esperança que até magoava saber que não podia salvar aquele menino daquele lugar onde habita o desespero, o medo, onde não há amor. Magoava olhar para ele e para todos os meninos sagrados que ali estavam como que prisioneiros de um destino que os abandonara demasiado cedo à sua triste sorte.

Todos eles tinham sido rejeitados pelo mundo, uns abandonados nas ruas para morrerem de fome, uns vítimas de aborto falhado, uns sofriam de doenças consideradas malditas na cultura indiana, outros, como o meu amigo dos olhos castanhos, eram órfãos.

Por fraqueza, desejei abandonar eu também aquele lugar tão escuro onde os sonhos de todas crianças que lá entram se apagam e são substituídos por pesadelos de tamanho grande. Porque ao ser confrontada com a fragilidade deles deparava-me com a minha própria fragilidade.

É isso que nos incomoda quando vemos o sofrimento, é vermos no outro espelhado o nosso sofrimento.

Mas não podia antecipar a minha partida e privar o menino de olhos castanhos de alguns momentos de felicidade. Como quando lhe pegava para lhe mostrar através da janela a confusão das ruas de Calcutá. Aí via um brilho especial nos seus olhos de criança.

Ele tocava demoradamente no vidro como se quisesse guardar com cuidado na memória tudo o que estava a viver. Ali ficávamos, eu a segurá-lo nos braços e ele a observar com detalhe o mundo exterior. Naqueles minutos o tempo parava para os dois. Estes momentos eram tão raros, fugazes que se tornavam por isso preciosos.

Momentos como aquele são algo que nem a miséria, nem a pobreza, nem a pouca sorte podem roubar.

Depois de lhe dedicar todo o tempo que podia, deitava-o no seu berço gradeado e atirava-me aos trabalhos da casa, movida pelo corpo e pela alma. Esfregava aquele chão de azulejos como se a vida daquele menino de olhos castanhos dependesse disso. Era um trabalho físico intenso e desgastante, demasiado duro para uma só pessoa. E dia após dia o cansaço começou a envolver os meus ossos maltratados, bem como o cheiro intenso a lixivia industrial.

Queria mudar o mundo e salvar todas aquelas crianças, lavar-lhes a solidão da alma, curar as suas doenças, dar sentido àquelas vidas.

Custava-me tanto ter de deixar o menino de olhos castanhos em Calcutá e não puder levá-lo comigo. Queria crescer mais rápido, puder de repente ter o poder para mudar aquela cidade e resolver todos os problemas que ali estão profundamente enraizados. Sinto que só resolvi coisas superficiais, mas que como não cheguei à raiz dos problemas as situações vão-se manter…

Percebi que eu perdera a esperança ao ver aquela realidade, ao entrar naquela sala de crianças abandonadas. E que aquele menino cujo nome nunca saberei, me iluminou, deu forças quando o cansaço já falava mais alto.

Aquele menino lembrou-me de que a humanidade não está perdida, que há bem no mundo mesmo quando se vive nas trevas.

O silêncio afogava as minhas angústias no caminho até ao aeroporto. Tinha a alma lavada em lágrimas e no pensamento tatuado o olhar daquele menino. Como é que podia ele ter esperança num mundo que só o desiludiu?

Percebi que queria agarrar aquela oferta tão generosa de esperança e usá-la para com a minha vida contribuir para a construção de um mundo melhor. Mas como é que se muda o mundo?

Talvez com o olhar. Com aquilo que dizem os olhos.

O meu mundo mudou com aquele olhar, talvez o meu olhar possa mudar um pouco o mundo de outros.

JOANA NÚNCIO

I travel in search of adventure and challenges. I write because I have stories that sing loud in my life, and because I strive to immortalize thoughts through words engraved in paper. I would like to have all the answers, but because I don’t, I look for them buried deep in books and in conversations with friends. Music is part of my life, and is able to describe exactly what is going on with me. I defend truth with all my strength. I have a dark side, and feel attracted to the abysm. I am impulsive and have an easy laughter. I look people in the eye. I like to see deep into people and things. I am demanding, knowing that perfection is unattainable and that beauty is in imperfection.

LISBON, PORTUGAL

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