AS IF MY EXISTENCE DIDN’T HAPPEN

AS IF MY EXISTENCE DIDN’T HAPPEN

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In Budapest, you can feel the pressure of a dictatorial, nationalist regime, who tries to alter the past to its own benefit.

But there are activists who don’t give up on keeping alive the respect for the victims of the history of a country who seems to have forgotten its legacy.

We stayed at a friends’ place, a couple who has been working in the city for a year. They are both Portuguese, working at a multinational firm with some compatriots, and have a sponsored trip home once a month.

The place where they live seems straight out of a classic Italian movie set. As we go through a worn-out wooden gate, a huge terrace circled by imponent balconies with plants on the eaves, give it a sublime touch that, from the outside, make it look like the entrance to an old house.

With huge vertical pillars, you could see the blue skies on top, indicating that we are lucky with the weather in Budapest as well.

After refilling our energy supplies, we head to the House of Terror museum, whose objective is to immortalize the victims of the fascist and communist regimes. The museum, opened in 2002, is massive, endless, and exhaustive. The enormous rooms are designed and thought to the detail so that visitors feel the discomfort of a building that witnessed uncountable tortures and deaths of the victims of inhuman systems. However, to someone who has a deeper knowledge of History, it’s easy to note the effort to alter the contexts and political scenarios in favor of a nationalist government.

This is what the Hungarian activists claim, mainly from older generations, because “the young cannot show they are against the system, or they lose their jobs”, as we are told later on.

Consider the museum an attack to Hungary’s history, an attempt to minimize the country’s participation in the ethnic cleansing practiced during World War II.

Maria Schmidt, the director and curator of the museum, has been accused of manipulating History and ignoring the Holocaust, by focusing instead on the Soviet occupation of the country, and dismissing Hungary’s participation in the horrors of the war.

“She is one more ally of Orban’s system, she’s part of his government – the same person that considers Schengen the end of the country’s sovereignty, who states that European Human Rights Court is the biggest cause of the European crisis by putting Human Rights first, and not border control.”, can be read in one of the documents of protest against the “falsification of History”.

“When they rose to power, 7 years ago, the first thing they did was re-write the Constitution and change the first paragraph, as if 60 years of History didn’t happen. As if my existence didn’t happen.”,

tells us, Andrew, calmly, crossing his arms. He is a History professor and has two kids. The white hair doesn’t stop him from showing up at his protesting shift every week, even though he has to travel from out of town. Born in 1957, Andrew witnessed the Soviet dominance, his parents were victims of the Nazis, and his grandma shot in the head at the shores of the Danube – because they were Jews.

The memorial is called “Memorial to the Victims of the German Invasion”. It was supposed to honour the Holocaust victims, and it all seemed fine until, after it was built,  a part of the population realized that “it was all wrong – the statue shows Angel Gabriel with the royal apple on his hand, and the German eagle ready to attack, when History has proven over and over that Hungary was a German ally. This is not right. We were not occupied.”, says Andrew.

The electoral system was also altered as soon as they took power, from the geographic organization to the number of voting rounds. This leads to this government being able to be in power with only 44% of votes, as they were able to get two-thirds of the seats in parliament.

In front of the angel and eagle statue is a group of objects left by the activists, as a reminder of the victims of the Holocaust.

“My mother died in Auschwitz”, says one of the posters.

There are translations in many languages of the document explaining to everyone who visits the monument the severity of what it represents.

“What worries me the most is the younger generations. The educational system is so bad that they have no idea of what’s going on, they don’t know the History, don’t have a political opinion.”, explains Andrew. “My sons, who are older than 20 years old, constantly disbelieve the danger of this pseudo-democratic dictatorship and don’t even understand populism.

It’s scary that the majority of the extreme-right supporters are young people.

How can they have so much hate at such a young age, if they didn’t even go through the regimes that we did?”, questions Andrew.

In his opinion, the complex of inferiority contributes to the growth of a sexist, racist, xenophobic, and homophobic society. It spreads an idea of sovereignty and power of a country that, in truth, is in constant collapse.

 

Photo by Diana Tinoco

Em Budapeste sente-se a pressão de um governo ditatorial e nacionalista que tenta alterar o passado em proveito próprio. Mas há ativistas que não desistem de manter vivo o respeito pelas vítimas da história de um país que parece ter esquecido o seu legado.

Em Budapeste ficámos hospedados em casa de um casal amigo que está a trabalhar há um ano na cidade. O emprego fica numa multinacional, trabalham com vários conterrâneos e têm direito a ir a Portugal uma vez por mês, viagem essa comparticipada pela empresa.A casa onde vivem é digna de um cenário de filme clássico italiano. Ao entrarmos por um portão de madeira já muito gasta, um enorme terraço circundado por varandas imponentes e várias plantas nos beirais dão um ar sublime àquilo que, por fora, parecia só a entrada para uma casa velha.Com enormes pilares verticais, ao cimo vê-se o céu azul limpo, indicador de que também em Budapeste vamos ter sorte com a meteorologia.Depois de repostas as energias fomos até ao museu Casa do Terror, cujo objetivo é imortalizar as vítimas dos regimes fascistas e comunistas. O museu, inaugurado em 2002, é massivo, interminável e exaustivo. As enormes salas estão desenhadas e pensadas ao pormenor para que o visitante sinta o desconforto natural de uma casa que serviu de teto a inúmeras torturas e mortes de vítimas de sistemas desumanos. Porém, para quem tiver algum conhecimento mais aprofundado da História, é nítida a tentativa de alteração de contextos e cenários políticos em favorecimento de um sistema nacionalista.Assim o reclamam ativistas húngaros, maioritariamente de gerações mais velhas porque “os mais novos não se podem mostrar contra o sistema, caso contrário ficam sem emprego”, explicam-nos mais tarde.

Consideram o museu um atentado à história da Hungria, numa tentativa de tentar minimizar a participação húngara no desfecho da limpeza étnica durante a ii Guerra Mundial.

Maria Schmidt, diretora e curadora do museu, tem sido acusada de alterar a história e ignorar o Holocausto, focando-se na ocupação soviética e ignorando a participação da Hungria nos horrores da ii Guerra Mundial.

“É mais uma aliada do sistema de Orbán, ela faz parte do governo dele, a mesma historiadora que considera Schengen o fim da soberania do seu país, que afirma que o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem é o maior causador da crise europeia por colocar os direitos humanos em primeiro plano em vez da defesa das fronteiras”, lê-se num dos documentos de protesto contra a “falsificação da História”.

“Quando vieram para o poder, há sete anos, a primeira coisa que fizeram foi reescrever a Constituição e mudar o primeiro parágrafo, como se 60 anos de História não tivessem existido. Como se a minha existência nunca tivesse acontecido”,

diz-nos Andrew, cruzando os braços e falando calmamente. É professor de História e tem dois filhos. O cabelo branco não o impede de estar no seu turno de protesto todas as semanas, mesmo sendo de fora da cidade. Nascido em 1957, assistiu ao domínio soviético, os pais foram vítimas dos nazis e a avó foi baleada na cabeça nas margens do Danúbio, uma vez que todos eram judeus.

O memorial chama-se “Memorial às Vítimas da Invasão Alemã”. Deveria homenagear as vítimas do Holocausto e tudo parecia bem até que, depois de construído, uma parte da população se apercebeu de que “tudo estava errado”. “A estátua mostra o Anjo Gabriel de maçã real na mão e a águia alemã pronta para caçar. Eles querem fazer parecer que a Hungria foi uma vítima da ocupação alemã quando a História está farta de nos provar que a Hungria foi aliada dos Alemães. Isto não é correto. Nós não fomos ocupados.”

Também o sistema eleitoral foi alterado assim que subiram ao poder, desde a organização geográfica ao número de rondas de votos. O que faz com que este governo, com apenas 44% dos votos, tenha o poder, uma vez que assim foi possível conseguirem dois terços dos lugares no parlamento.

Frente à estátua está um conjunto de elementos que os ativistas colocaram como lembrança constante das vítimas do Holocausto.

“A minha mãe morreu em Auschwitz”, lê-se num dos cartazes.

Há traduções em várias línguas do documento que explica a todos que visitam o monumento a gravidade do que ele representa.

“O que me preocupa mais são as gerações mais novas. O sistema de ensino é tão mau que eles não fazem ideia do que se passa, não conhecem a história, não têm posição política”, explica Andrew. “Os meus filhos, com mais de 20 anos, descredibilizam constantemente o perigo desta ditadura pseudodemocrática e nem sequer entendem o populismo. É assustador que a maioria dos apoiantes da extrema-direita sejam os jovens.

“Como pode haver tanto ódio numa geração tão jovem quando eles nem passaram pelos sistemas como nós?”, questiona Andrew.

Na sua opinião, o complexo de inferioridade ajuda ao crescimento de uma sociedade machista, racista, xenófoba e homofóbica. Propaga-se uma ideia de soberania e poder de um país que, na verdade, está em constante desmoronamento.

Foto: Diana Tinoco

BALOLAS CARVALHO

In love with life, I've always asked many questions and was never satisfied with easy answers. With skinned knees, typical of someone who enjoys life with body and soul, who grew up traveling in the stories and fantastic worlds of the people with whom I've crossed paths. A fish with a bear’s heart, with a special esteem for nature and for the best in humanity, I've found in journalism a way to bring answers and share stories with the world.

LISBON, PORTUGAL

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