WITHOUT FEAR THERE IS NO POWER

WITHOUT FEAR THERE IS NO POWER

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The Miljacka river, crossing the capital of Bosnia-Herzegovina, runs independently of what it witnesses. The low, blurred water, where hundreds of crows bathe, has seen the history of humanity take many turns on its shores.

We woke up in Sarajevo. The basement turned improvised accommodation is located in the old part of town. We woke up with the Muslim calling for the morning prayer. There are mosques all over the city – more than one hundred, we would come to know.

We woke up in Sarajevo and the biggest question on my mind was how to start writing about this place.

How can I translate to words everything that the capital of Bosnia-Herzegovina makes us feel as soon as we step on these pavements? It will be the capital that impacts us the most on this trip, where the mourning contrasts with the life of the ottoman neighborhood, the stones on the endless cemeteries reflect the sun illuminating the entire city, where the statue of John Paul II in front of the cathedral encounters the Crimes Against Humanity and Genocide Museum, where the children’s laughter shakes the memories of the city that suffered inside the longest war siege since the Modern Age.

During the most recent war, at the beginning of the 90s, Sarajevo was under siege for four years and the people, the monuments, and the museums will remind us of that constantly, although it is a wound in which no one likes to touch.

Today the city is peaceful, in spite of the “endlessly unstable” politics, as explained by a merchant from the ottoman neighborhood.

Sarajevo is a salad of cultures, ethnicities, and religions. There are 3 main religions, 3 different languages with the same etymological basis, and two alphabets. The ethnicities are divided between the Orthodox Serbians, associated with the traditional Russian Church who, during the Cold War, was tendentially demonized by the USA; the Bosniaks, guided by Islam and its laws, attracting Muslims from all over the world to the inside of the Bosnian borders; and, lastly, the Catholic Croatians, who played a strong role in the country’s war.

“Here, there is no good or bad side, we were all puppets of international powers and we know it. I didn’t defend any nation, I defended my family.”,

tells us another merchant, who doesn’t want to be named because “all the walls have ears”, but who looks an awful lot like American actor Bill Murray. “I never wanted to know if my wife was Muslim or Croatian, we were all one. Sarajevo has never differentiated the ethnicity or religion of anyone, also because no one here is religious”, he tells us assertively.

Later, many locals would support this thesis. “We are Catholic, Muslim or Orthodox, but only in paper. People don’t go to mosques or churches. It’s all a matter of power: they say there are three ethnicities and three religions, and so we have three Presidents that can’t get along.” he explains. In Bosnia, politics is a complex game – there are three different leaders that take over presidency every eight months in a rotational system.

For centuries, Sarajevo was the frontier between the Austro-Hungarian Empire and the Ottoman Empire.

The influence of both is felt on the streets of the capital, and the churches and mosques are only some of the remainings of both worlds. We glance at the square that unfolds in front of the door of the Emperor’s Mosque. Tourists are not allowed inside the mosque during prayer, but luck made us friends with Selim Hafiz, 55 years-old, responsible for the mosque. Selim invites us inside at 15:54h time of the first-afternoon prayer, which we attended.

Selim Hafiz is the muezzin of the oldest mosque in Sarajevo. His role is to announce to the whole city, without a mic, from the top of the mosque’s tower, that it is time to pray. During the war, he climbed the more than 90 steps to call the believers to pray every day.

“Bombs were falling, shots were being fired, but God never wanted me to be hit.”, says Selim.

“War teaches us a lot. My parents were Muslim by inheritance, but they never raised me to be religious. But then came the war. And the war changes everything”, told me a Muslim who only became one after being on the front line of war.

“I wish I could express with the right words what I feel inside to you. My heart is so happy to have you here!”,says Selim as he gifts us a masbaha, similar to a Catholic rosary with wooden little balls. I ask him about the entry of Al-Qaeda through Bosnia, about the Muslim extremism and how they see Islamophobia, a result of the propagation of terror by groups such as ISIS.

“Those people don’t represent us.”

“They give a title to their ideas and call it faith. Read the Coran and tell me where does it say that we are allowed to kill. We are not, no human being has that right. And if God is all-mighty, why would he sacrifice lives? They want to spread fear, and you know why? Because if you’re afraid, it is much easier to turn you against me. Without fear, there is no power.”.

The conversation goes on for hours until Selim, the son of the most famous muezzin in the whole Europe, who died at 84, says goodbye, his hands holding ours. “I will always have you in my prayers. Our jobs are similar – we spread the word for peace and love across the world.”

 

 

Photo Credit to Diana Tinoco

O rio Miljacka, que atravessa a capital da Bósnia e Herzegovina, corre independentemente do que testemunha. As águas turvas, baixas, onde centenas de corvos se banham, viu a história da humanidade dar várias reviravoltas nas suas margens Acordámos em Sarajevo. A nossa cave improvisada de alojamento local fica na parte antiga da cidade. Acordámos com o chamamento muçulmano para a oração da manhã. Há mesquitas por toda a cidade. Viremos a saber que são pelo menos cem.
Acordámos em Sarajevo e a grande questão que me aflige por esta altura é: como se começa um texto sobre este lugar?
Como se pode passar, através de palavras, tudo o que a capital da Bósnia e Herzegovina nos faz sentir assim que se pisam estas calçadas? Será a capital que mais nos marcará nesta viagem, onde o luto contrasta com a vida do bairro otomano, as lápides dos cemitérios infinitos refletem o sol que ilumina toda a cidade, onde a estátua de João Paulo II em frente à grande catedral se cruza com o Museu dos Crimes Contra a Humanidade e do Genocídio de 92/95, onde os risos das crianças fazem estremecer as memórias da cidade que sofreu no interior do mais longo cerco de guerra desde a Idade Moderna.
Na guerra mais recente, no início da década de 90, Sarajevo esteve sob cerco durante quatro anos e as pessoas, os monumentos e os museus vão lembrar-nos disso constantemente, embora seja uma ferida em que ninguém gosta de tocar.
Hoje o clima é de paz, mas de política “infinitamente instável”, explica-nos um comerciante no bairro otomano. Sarajevo é uma salada de culturas, etnias e religiões. Contam-se três principais religiões, três diferentes línguas que se encontram na mesma base linguística e sabem-se dois alfabetos. As etnias dividem-se entre os sérvios ortodoxos, associados à igreja tradicional russa e daí, em tempos de Guerra Fria, tendencialmente demonizados pelos Estados Unidos da América; os bosniaks, que se guiam pelo islão e as suas leis, atraindo muçulmanos de todo o mundo para dentro das fronteiras bósnias; e ainda os croatas católicos, que tiveram um pesado papel na guerra do país.
“Aqui não há bons nem maus, fomos todos marionetas do poder internacional e sabemos disso. Eu não defendi pátria nenhuma, eu defendi a minha família”,
conta-nos um outro comerciante, que não se quer identificar porque “as paredes todas têm ouvidos”, mas que se assemelha demasiado ao ator norte-americano Bill Murray. “Sou filho e neto de fotógrafos, somos gerações e gerações de comerciantes. Esta loja existe há cinco gerações. Nunca quis saber se a minha mulher era muçulmana ou croata, nós éramos todos um. Sarajevo nunca diferenciou a etnia ou a religião de ninguém, até porque aqui ninguém é religioso”, diz-nos de forma assertiva. Mais tarde, são vários os habitantes locais que apoiam esta tese. “Nós somos católicos, muçulmanos ou ortodoxos, mas é no papel. As pessoas não frequentam as mesquitas ou as igrejas. É tudo uma questão de poder: dizem que há três etnias e três religiões, e assim temos três presidentes que não se entendem”, explica. Na Bósnia, a política é um jogo complicado. Existem três líderes que assumem a presidência num sistema rotativo, de oito em oito meses.
Durante séculos, Sarajevo foi a zona fronteiriça entre o Império Austro-Húngaro e o Otomano.
A influência de ambos nas ruas da capital são notáveis e as igrejas e as mesquitas são só algumas das heranças dos dois mundos. Espreitamos para o largo que se estende à porta da Mesquita do Imperador. Os turistas não podem entrar nas mesquitas quando as pessoas estão a rezar. Mas, como a sorte nos tornou amigas de Selim Hafiz, de 55 anos, responsável pela mesquita e por chamar todos os dias os crentes para as orações, este convida-nos a entrar na mesquita às 15h54, hora da primeira oração dessa tarde, à qual assistimos. Selim Hafiz é o muezim da mesquita mais antiga de Sarajevo. A sua responsabilidade é a de anunciar a toda a cidade, sem microfone, do alto da torre da mesquita – a almadena – que está na hora de se dedicar à oração. Durante a guerra, todos os dias subiu os mais de noventa degraus para chamar os fieis para rezar
“caíam bombas, disparavam tiros, mas Deus nunca quis que me acertassem”.
“A guerra ensina-nos muito. Os meus pais eram muçulmanos por hereditariedade, mas nunca me educaram para ser religioso. Mas, depois, veio a guerra. E a guerra muda tudo”, conta, depois da oração, um muçulmano que não o era até ter estado na linha da frente de combate. “Gostava tanto de vos explicar em palavras certas o que sinto cá dentro. O meu coração está tão feliz por vos receber aqui”, diz-nos, enquanto nos dá de lembrança um masbaha, que se assemelha a um rosário católico, com bolinhas em madeira. Pergunto-lhes sobre a entrada da Al- -Qaeda pela Bósnia, sobre o extremismo muçulmano e como é que veem a islamofobia que resulta da propagação do terror por grupos como o ISIS.
“Essa gente não nos representa".
"Dão um título aos ideais deles e chamam-lhes fé. Leia o Corão e diga-me em que parte é que diz que podemos matar. Não podemos, nenhum humano tem esse direito. E se Deus pode tudo, porque haveria de querer sacrificar vidas? Querem espalhar o medo, e sabes porquê? Se tiveres medo, é muito mais fácil virarem-te contra mim. Sem medo, não há poder.” A conversa estende-se por várias horas e, no fim, Selim, filho do mais famoso muezim de toda a Europa, que faleceu aos 84 anos, despede-se de nós com as mãos dadas às nossas. “Vou sempre ter-vos nas minhas orações, as nossas profissões são parecidas. Espalham a palavra da paz e do amor pelo mundo.”

BALOLAS CARVALHO

In love with life, I've always asked many questions and was never satisfied with easy answers. With skinned knees, typical of someone who enjoys life with body and soul, who grew up traveling in the stories and fantastic worlds of the people with whom I've crossed paths. A fish with a bear’s heart, with a special esteem for nature and for the best in humanity, I've found in journalism a way to bring answers and share stories with the world.

LISBON, PORTUGAL

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